Viagem a Barcelona, Setembro 2005 (4)

(continuação)

11.SET.2005 23:50

Hoje começo mais cedo a escrever. Não é por ter muito, mas sim porque amanhã tenho de ir trabalhar…

Se ontem o dia serviu para encher a vista, hoje serviu para encher o espírito. Já lá vamos. Hoje só consegui acordar duas horas depois do despertador (07:30) e já com o sol a entrar no quarto. Mas tinha tomado um opção: não iria correr como ontem; até porque estou ligeiramente lesionado (pés, virilhas,…). Apanhei o metro em Pg. De Grácia (linha amarela) e saí em Jaume I. Depois de ter saído fiquei a saber que devia ter saída na anterior (Urquinaona). Mais um passeio pela Via Laietana e ruas paralelas.

Palau de la Musica Catalana, Barcelona

Cheguei ao Palau de la Musica Catalana. À primeira vista parece um edifício novo, devido à parte que foi construída/reparada recentemente, mas depois de ver a parte antiga…ai, ai, ai. Se na S.F. fiquei sem palavras, então aqui, depois de começar a ver o interior (onde não se pode tirar fotos nem fazer filmes por motivos de direitos de autor), fiquei…emocionado. Se antes não tinha palavras, agora não tenho sentimentos, ou melhor, estou/fiquei baralhado, emocionado, cheio. E depois de ouvir a “Toccata e Fuga” de Bach na sala de concertos do coro, fiquei com lágrimas nos olhos. E ali tomei uma decisão: hei-de ali voltar para assistir a um espectáculo. Vamos aos factos: toda a decoração do edifício está feita em vidro e cerâmica. Desde o tecto, passando pelas paredes, até ao fundo do placo, tudo é vidro e cerâmica. Claro que o palco é de madeira, assim como a estrutura das portas, existem esculturas em pedra, mas até os balaústres dos corrimões das escadas são em pedra e vidro! Esta foi a 1ª de três vezes em que hoje estive com lágrimas nos olhos. Acabada a visita (+-50minutos) pus-me a caminho da catedral de Barcelona. Quando lá cheguei estava a decorrer uma missa. Dei uma voltinha pelas capelas laterais e assisti à missa. Quando voltei para o meu lugar depois de ter comungado emocionei-me pela 2ª vez. Afinal estava sozinho, a 1200Km de casa, sem conhecer ninguém. Mentira! Emocionei-me porque me senti em casa. Estar ali a comungar o Corpo de Cristo com aquelas pessoas, depois do abraço da paz, senti mesmo que Deus está connosco quando nós quisermos; e naquele momento Ele estava ali.

Depois da missa, vi como os espanhóis são mesmo virados para o turismo.

Cadeiral, Catedral de Barcelona

Os seguranças não deixaram ninguém dentro da catedral. Fecharam as portas durante 15 minutos e voltaram a abri-las para começarem a vender os bilhetes. Ah, ía-me esquecendo…em todos os locais turísticos onde se paga para entrar, existem seguranças com o propósito de controlarem os turistas. E até falam inglês!

O que mais me impressionou foi o cadeiral. Não é tão imponente como o de Toledo, mas o trabalho da madeira e pintura está um espectáculo.

Depois da visita fui procurar um sítio para almoçar. Afinal já eram 15:00. Depois de umas voltas, fui parar a um bar atrás da catedral chamado “Hugo Tapas Bar”. Não sei se pelo nome ou pela fome, entrei. É o típico bar-tasca com um balcão do lado direito onde existem uns bancos, a entrada é estreita (por causa do balcão) e ao fundo tem uma salinha com 4 mesas pequenas, umas grades de garrafas ao longo das mesas, uns quadros de Barcelona nas paredes e uma televisão. Comi mais e melhor que ontem (e mais barato). Desta vez foram cogumelos, mexilhões e jamon serrano (um prato cheio!!). Até a “clara” era o dobro da de ontem (em quantidade).

De seguida fui passear pelos bairros em direcção às Ramblas. Passo defronte de uma igreja e fico a saber que vai haver um concerto de guitarra espanhola com Manuel González. Trago um folheto (muito gentilmente entregue por uma das promotoras) e sigo para ver as Ramblas. Concluo que aqui é o local de Barcelona onde se encontram mais pessoas por metro quadrado a qualquer hora. Assisto a algumas representações dos artistas de rua e até a uma tentativa falhada de um carteirista assaltar a mochila de um turista. O tipo corria mesmo depressa. Sigo em direcção à Pedrera. Já não tenho muito tempo. Quero ver também a Casa Batlló e ainda tenho de passar pelo hotel. Isto tudo a tempo de estar na Basílica de Santa Maria del Pi antes das 20:00.

A Pedrera (ou Casa Miló) admirou-me, mas não me deslumbrou. Admira-me a capacidade de Gaudi para trabalhar as formas e as cores de forma a aproveitar o melhor para um arquitecto: a luz natural. Também fiquei admirado pelo tipo de construção utilizada. Toda a estrutura da casa é feita de vigas de ferro unidas por enormes ‘rebites’. A solução do sótão também está um espectáculo: fazer arcos salientes com tijolos maciços, que em conjunto com todo o tecto, também em tijolo maciço, faz o controlo da temperatura arrefecendo a placa no verão e aquecendo no inverno. Saí a correr (não sem antes visitar o apartamento-museu), passo novamente pelo hotel e sigo direito à Casa Batlló. Já são 18:40 e tenho de me despachar.

É impressionante como Gaudí aproveita a luz natural desta casa. Até à última divisão (o armazém), que está no piso térreo, tem luz natural.

Clarabóia, Casa Batlló

Tudo fruto de duas clarabóias interiores que cavam dois fossos de luz, desde a cobertura até ao rés-do-chão; para uniformizar a iluminação, os azulejos da parte superior são mais escuros e os de baixo mais claros. É igualmente fantástico a forma como ele resolve as questões da ventilação. Se muitos dos nossos actuais arquitectos se preocupassem mais, seriam desnecessários ar-condicionados e afins. Com lareiras e ventilação adequada fazem-se milagres. Esta visita foi a correr. Já são 19:25 e ainda tenho de ir apanhar o metro. Agora são 19:50, já estou sentado dentro da igreja e ainda tive tempo de comer um bolo e beber um chocolate. É o que faz o metro andar sempre a horas.

O artista chegou com 5 minutos de atraso (como todos os bons artistas) e prepara-se para começar. Ao fim de 5 minutos estou rendido. O homem é mesmo bom. As notas parecem dançar no ar descrevendo imagens, sentimentos e lugares. Composição atrás de composição bato as palmas com mais força. Eu e as outras pessoas. Todos estamos enfeitiçados pela música que sai da guitarra de Manuel Gonzalez. Culmina com a interpretação da “Gran Jota Aragonesa”, em que ele toca só com a mão esquerda, imita vários instrumentos de percussão só com a viola utilizando a caixa e/ou as cordas. É incrível. No final as pessoas levantam-se para aplaudir e exclamar “Viva!”.

Basilica St Maria del Pi, Barcelona

Mas é com a peça seguinte que me tocou o sentimento. Isto nunca me tinha acontecido desta forma. Ao ouvir e sentir o adágio do Concierto de Aranjuez de Joaquin Rodrigo, envolto em silêncio juntamente com mais de 500 pessoas, com velas acesas nas capelas laterais da Basílica, com a imagem de Nossa Senhora ao fundo, fiquei com as lágrimas nos olhos pela 3ª vez neste dia. Foi o melhor final de dia que podia ter tido. No final do concerto toda a plateia obrigou os músicos (nas últimas duas peças houve a colaboração de Jordi Vilaprinyó ao órgão) a voltar duas vezes para mais duas interpretações. Por fim, o guitarrista atravessou a Basílica desde o altar até à porta principal (saindo por aí) debaixo de uma ovação de pé. Senti-me pequeno (no meio de tanta arte) mas cheio por dentro. Comprei um CD, pedi para ele autografar o vim-me embora para o hotel.

O resto da noite decorreu normalmente, havendo só mais uma coisa a referir. Depois do jantar, enquanto me dirigia calmamente para o hotel, comecei a ouvir o som de uma flauta. Era um senhor que estava sentado num degrau a tocar flauta e com o respectivo chapéu a aguardar um donativo. Ali fiquei, sentado num banco de jardim a apreciar a música. O mais espantoso foi quando reparei que ele oferecia um livrinho a quem lhe dava uma moeda. Isso fez-me pensar: quem é que está ali a dar? São as pessoas que passam, vêem um homem velho de barbas brancas a tocar flauta e param para dar uma esmola, ou é o homem ao encher a rua com belos sons e palavras? Palavras sim, porque o que está escrito no livro são palavras dele (Joan Parera) que eu traduzo aqui. Estas são as que estão na capa: “Proposta pessoal de princípios fundamentais baseados no civismo, com intenção de estimular o conhecimento e a divulgação dos elementos que formam os valores contemporâneos”. Bom, depois de um taxista revolucionário encontro um ‘pedinte’ filósofo. Concluo que Barcelona estará cheia de pessoas com vontade de mudar algo, de inovarem, de reinventarem.

E pronto. Acabou mais um dia. Já são 01:40 e amanhã vai ser um dia de trabalho. Boa noite.

(continua)

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